Esplêndida Saudade

Saudades,
por isso vamos para a praia.
E lá, sem meias voltas e meios caminhos
abrir-se-á o mar profundo,
mar sem fundo,
mar sem fim
trazendo
no olhar
que outrora era cautela, asfalto e aço
a intuição
do mais singelo querer bem.
Depois, atravessado os caminhos da areia,
pisando galho por galho
a encosta da praia
novamente
abrir-se-á, diante de nós.
Abrindo também
nossos olhos
que até então
não sabiam ver.

E com o peito
estufado de orgulho,
a Saudade que nos fez
caminhar toda a praia
terá abolido
nossas dores,
-como as almas
que quando encontram a verdade
emudecem
para sempre
molhadas
na salgada felicidade…-

E no corpo só a pele nos aquecerá,
pois, nossas roupas
rasgadas
de um súbito amor
serão rasteiras
lembranças vazias
que dia após dia
terão sido encobertas
pela areia que umedeceu
por causa da maré
que soou em esplêndida Saudade…

Envelhecer

Envelhecer tem sido uma epifania. Uma boniteza, uma calma, uma preguiça de urgências, corridas, descompassos, mapas[bb]. Compreende-se candura, desapego, o valor de um não e as tardes chuvosas em que falta luz. Alargam-se as estantes, o coração esparrama um pouco pelas frestras das cicatrizes. Estas, se acomodam melhor. Procura-se menos. Mas ainda é possível sair sem grana e se divertir à beça, deixar o coração em casa e volver apaixonado. Envelhecer não cansa, expande, apavora, enaltece. E cada um de nós invariavelmente se transforma exatamente no que é.

 

Final perfeito – Gilda Radner

Eu queria um final perfeito. Agora que eu aprendi, da maneira mais difícil, que alguns poemas não rimam, e algumas histórias não têm um começo, meio e fim.  A vida é focada no não saber, ter de mudar, segurar um momento e fazer dele o melhor, sem saber o que vai acontecer a seguir. Ambiguidade deliciosa…